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Uma necessária reflexão
Tudo começa no dia em que você monta sua fábrica de doces.
Com uma produção semanal de mil doces, você consegue atender à demanda de seu próprio município e algumas cidades vizinhas, mas não sobra muita coisa em estoque. Você gostaria de ampliar o negócio, pois a região facilmente comportaria a venda de uns quatro mil doces por semana, mas pra isso precisaria de no mínimo mais uma van para as entregas e maquinário melhor, e isso não sairia por menos de R$100.000. Se tivesse dinheiro para investir você poderia lucrar quatro vezes mais, mas não é o caso.
É viável conseguir um sócio que aceite investir R$100.000 na sua empresa? Infelizmente, no momento não. Por outro lado, você sabe que várias pessoas sem o seu espírito empreendedor estariam dispostas a investir um pouco e receber retornos proporcionais ao próprio investimento. Você decide dividir a sua doceria em cotas de participação, cem mil no total. Dessas cotas, você reserva cinquenta mil e uma para você (afinal, quer manter o controle do próprio negócio…), e oferece as demais quarenta e nove mil novecentas e noventa e nove para investidores interessados adquirirem ao preço de R$2 por cota. Você arruma algumas dezenas (talvez mais) de pequenos sócios que vão dividir os lucros e prejuízos de sua empresa através dessas ações. Em tempo, você acabou de aumentar o seu capital em R$100.000 e potencializar quatro vezes o lucro.
A ideia é genial, e não demora muito para que a sua vizinha, no ramo da tecelagem, acompanhe seu exemplo bem-sucedido, e o sistema acaba se tornando interessante também para a fábrica de salgados da cidade vizinha. Até você adquire algumas ações dessa última, uma espécie de “política de boa vizinhança” da indústria alimentícia local. No fim das contas, todos estão investindo em ações, é o negócio do futuro, principalmente para quem acredita na força de um bom empreendimento, mas não quer assumir riscos.
Um belo dia, alguém descobre que pode faturar não simplesmente confiando na capacidade dessas empresas de gerar lucro, mas sim negociando suas ações. Se sua doceria começa a vender para o estado inteiro, é provável que aquelas pessoas que adquiriram cotas de participação por R$2 não queiram agora vendê-las por menos de R$10, certo? Afinal, você comprou todas as pequenas docerias da região e ensaia um avanço para fora do estado. Sabendo dos seus planos, um colega resolve comprar cotas da empresa enquanto elas ainda valem apenas R$10, pois em breve valerão R$15. O que ele fará quando elas se valorizarem? Venderá, ora!
Nessa hora, talvez você se sinta um pouco incomodado, talvez não. Talvez você quisesse esperar mais um pouco para avançar para fora de seu estado de origem, talvez você resolva que é necessário aproveitar a oportunidade, e pegue um empréstimo no banco para esse fim. Talvez os seus investidores fiquem sabendo e o preço das suas ações caia. O cerne da coisa, no entanto, é que tudo isso aconteceu no momento em que as cotas da sua empresa deixaram de ser um voto de confiança no seu trabalho e se tornaram um bem em si mesmas. Pior de tudo, um bem sobre o qual só se ganha, basicamente, através de boa especulação.
Foi mais ou menos assim que o capital especulativo pegou um conceito bacana e transformou em algo ruim. Você não precisa ser contra o capitalismo (eu não sou), mas será que realmente é certo que a mina de ouro da economia atual não envolva a produção de bens para as pessoas? Antes de apontar o dedo e dizer: “seu comunista!” pergunte a si mesmo: o que o capital especulativo produziu de bom para o mundo? Qual é a função social dele? Pense a respeito.


